
Nelson Lacerda Nogueira (1894
Jornalista e homem de letras, Nelson Lacerda Nogueira foi o primeiro diretor do Arquivo Público Estadual e da Biblioteca Estadual. Polemista e historiador, foi um dos mais importantes intelectuais niteroienses do século XX e membro fundador da Academia Fluminense de Letras.
Sobre o evento
Figura de vanguarda na moderna geração intelectual do Estado, os seus serviços à causa pública no terreno da educação cívica foram profícuos, quer atuando diretamente pela pena em escritos de erudição, quer secretariando a sociedade Renascença Fluminense, criada em 1923 com o objetivo de promover o desenvolvimento do Estado do Rio. Presidida inicialmente pelo jurista e jornalista Everardo Beckeuser, era a concretização de um sonho de Lacerda Nogueira.
Filho de Antônio José da Costa Nogueira, funcionário da Companhia Cantareira, e de Maria Elisa de Lacerda, Lacerda Nogueira nasceu na cidade fluminense de Sumidouro, a 18 de agosto de 1894. Era irmão do também imortal, o médico Hamilton Lacerda Nogueira, além de Eugênio, Alaíde e Dagmar.
Casou-se em fevereiro de 1916 com a senhorita Lavínia de Souza Dias, no mesmo ano em que formou-se em Direito. Ainda em 1916, tornou-se sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Fluminense,
Na Academia Fluminenses de Letras (AFL), da qual foi fundador e secretário perpétuo, ocupou a cadeira nº 38, que tinha o Almirante Saldanha da Gama como patrono. Tal foi sua dedicação à Casa dos Imortais Fluminenses, que muitos, ao citar a AFL, diziam "A casa de Lacerda Nogueira". A revista da Academia Fluminense, então das melhores, senão a melhor no gênero em todo o país, foi iniciativa sua.
Foi sócio fundador também, em 1923, do Cenáculo Fluminense de História e Letras.
Em julho de 1927 foi nomeado Diretor da Biblioteca Pública do Estado e, em 1931, do Arquivo Público Estadual. Inicialmente abrigados num prédio da rua Marechal Deodoro, a partir de 1935 passaram a ocupar um elegante edifício construído na Praça da República, sob os cuidados do artista e arquiteto Pedro Campofiorito.
Patrocinado pela Classe de Belas Artes da AFL, organizou em outubro de 1929 o 1º Salão Fluminense de Belas Artes.
Militante político de espírito combativo, acompanhou desde seus 14 anos a corrente que seguia a orientação de Rui Barbosa, de cuja candidatura à Presidência da República fez fervorosa propaganda. Mais tarde, foi um dos colaboradores do Presidente Feliciano Sodré, de quem foi Oficial de Gabinete.
Simpatizante do Integralismo, em 1936 elegeu-se deputado na Assembleia Legislativa, como representante classista do funcionalismo (inovação criada por Getúlio Vargas), e nela a sua voz vibrante era sempre acatada. Como todos os parlamentares brasileiros, em 1937 foi cassado pelo Estado Novo.
Em 1938 publicou o livro "A mais antiga Escola Normal do Brasil", contando a história do centenário da Escola Normal Fluminense, hoje Liceu Nilo Peçanha, comemorada em 1935.
De seus inúmeros trabalhos literários, alguns resultantes de suas pesquisas históricas, destacamos ainda "A Força Militar do Estado e as Origens da Corporação"; "Defesa de Casimiro de Abreu" (organização), "A Vida Romanesca de Natividade Saldanha"; e "Primórdios do Ensino Público na Província Fluminense" (1960).
Lecionou nos Colégios Abílio, Brasil, Icaraí, Ateneu Fluminense, Ginásio Fluminense, na Escola Normal de Niterói e participou de bancas de vestibular na Faculdade de Direito.
Além do cultivo das letras, dedicou-se ao еspоrte, no qual foi grande remador e nadador, sendo o primeiro a atravessar a nado, a Baía de Guanabara.
Recebeu as medalhas Machado de Assis; Cinquentenário da República; Jubileu da Federação das Academias de Letras; e a do Brigadeiro Castrioto, na Polícia Militar do Estado do Rio.
Ao lado de Mario Alves e Antônio de Noronha Santos, foi redator do jornal 'O Estado' por longos anos, além de ter colaborado com vários outros órgãos de imprensa, como 'O Fluminense' e 'Correio da Manhã'. Com o inseparável amigo Salomão Cruz, criou em 1919, o semanário 'Renascença', dedicado à literatura, ciência, artes, sociologia e esportes. Em 1921, criou 'A Folha Municipal', semanário editado no município de São Gonçalo. No mesmo ano, tornou-se redator chefe da Revista Ilustrada "A Vitória".
Uma semana antes das comemorações do cinquentenário da Academia Fluminense de Letras, sua maior paixão, aos 72 anos, Nelson Lacerda Nogueira faleceu, de arteriosclerose cerebral, no então Estado da Guanabara, a 25 de julho de 1967.
Era casado, em segundas núpcias, com Lea Stamile Gonçalves, de cuja união deixou quatro filhos, entre eles Lea Aurora Maria e Vívia Aurélia Maria. Não nos foi possível conhecer o nome dos outros dois.
Do primeiro matrimônio, com Lavínia de Souza Dias, deixou os filhos Maurício, Lavínia e Mauro. Tinha cinco netos.
Logo após sua morte, a Academia Fluminense de Letras adquiriu sua biblioteca, passando em 1974 sua administração para o Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural (hoje FAN), que a abrigou até pelo menos meados da década de 1980, na Casa Norival de Freitas.
Sobre a inauguração da nova sede da AFL, no prédio da Biblioteca Pública do Estado do Rio, chamada inicialmente de Universitária, escreveu Nelson Lacerda Nogueira: "Amanhece aquele, para mim de eterna lembrança, 6 de setembro de 1934, uma quinta-feira. Fora da exatidão histórica a data, mas no período em que se poderia evocar o centenário da autonomia da Província do Rio de Janeiro, a mais rica do Império, dar-se-ia a inauguração da sede e natural consagração do ato ao 1º Presidente que o governou, Joaquim José Rodrigues Torres. Organizara o Arquivo Público, que a inépcia administrativa rapidamente desmantelaria, e a prova dessa organização se refletia na Exposição de História Administrativa Fluminense (autógrafos de governos, iconografia e mapas regionais) e fiz com que o certame se abrisse e funcionasse a partir das 20h30 nas varandas da Academia e nas salas laterais da Biblioteca Universitária, nas vésperas de seu franqueamento à consulta dos que a buscassem. Às 21h, o interventor Ary Parreiras, transbordante o recinto acadêmico, assentava-se à Mesa sou la coupole, ecoando-nos ainda nos ouvidos, pelo mesmo estadista proferidas, estas vozes: 'É com a maior satisfação que, atendendo ao convite do ilustre presidente da Academia Fluminense de Letras, declaro inaugurada a sua sede definitiva, modesta homenagem do governo à cultura e às tradições fluminenses'."
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Depoimentos
"A obra da Renascença Fluminense é quase que apenas o esforço desse devotado concidadão, coração boníssimo, alma ardente e artística, braço resistente e poderoso. Ele idealiza o conjunto; ele esmiúça os detalhes, e ele executa. É ele só. Só ele. E isto basta, porque os demais diretores o aplaudem, o louvam... e descasam. Faz tudo isso, porém, com simplicidade e modéstia, sem o desejo mesquinho de ser superior a ninguém. Ao contrário: procura se apagar, fazendo sobressair os nomes alheios." (Editorial de 'O Fluminense', out. de 1925)
"O Governo Fluminense acaba de nomear para exercer as importantes funções de Diretor da Biblioteca Pública do Estado o nosso ilustre e estimado colega de imprensa Dr. Nelson de Lacerda Nogueira, que já pertencia ao funcionalismo. A escolha do Governo foi acertadíssima, recaindo num funcionário com patente e pessoa que reúne todos os predicados para o bom desempenho das suas nobres atribuições. Lacerda Nogueira, que é atualmente um dos mais apreciados redatores d'O Estado, ocupa posição de destaque nos nossos meios literários, tendo estreado brilhantemente na imprensa como colaborador d'O Fluminense. O recém nomeado é também Presidente da Academia Fluminense de Letras e iniciador da Renascença Fluminense. (O Fluminense, 15 de out. de 1927)
"(Sobre a AFL) Foi a ousadia irritante e insuportável desses mocinhos que alicerçou a nossa já tradicional Academia. E foi um desses jovens, Nelson Lacerda Nogueira, que a alimentou com a sua fulgurante inteligência, sua incrível capacidade de trabalho e sua vontade férrea, durante muitos anos." (Albertina Fortuna Barros, em 'O Fluminense', 1964)
"Se a Academia Brasileira de Letras é a Casa de Machado de Assis, bem que a nossa instituição poderia ser, igualmente, a partir de agora, a Casa de Lacerda Nogueira. Com esse alvitre, faço justiça ao confrade inigualado inigualável no interesse que demonstrou diariamente pelos destinos da Academia, centro das reafirmações de sua fé no brilho sem fim de inteligência cultural, das realizações intelectuais da gente fluminense, muitas delas obras-primas imortais. Por tudo isso, ficará imperecivelmente aqui em nossa Casa, a memória do idealismo daquele cujo nome já está cravado no bronze há pouco inaugurado, mais impressivamente, na recordação de todos nós e dos que nos sucederem, como um símbolo e como uma luz." (Alberto Torres, 1967)
"O Estado do Rio lhe deve inestimáveis serviços, pois, quando não bastasse a obra imperecível que aí está consubstanciada no Arquivo Público e na Biblioteca Universitária, falariam, com eloquência, da sua notável contribuição no levantamento intelectual do nosso povo, a Renascença Fluminense, aquele formoso movimento de inteligência e de civismo de que ele foi o miraculoso animador, e esta Academia que, em verdade, tudo lhe deve. [...] Praticante do "fluminensismo", na História, na Literatura, na Genealogia, fiel às suas origens, foi um estimulador dos novos, mago das realizações arrojadas, o sustentáculo de grandes iniciativas de pensamento e de cultura em nosso Estado". ("Teles Barbosa em seu discurso de posse na AFL).
"Lacerda Nogueira nasceu e viveu boêmio. O próprio tipo convidava à boêmia... Sua boêmia, no entanto, não era daquelas que levam a pessoa a perder a noção das suas responsabilidades e a se permitir aniquilar de todo. Sabia recompor-se: ter linha era-lhe uma qualidade inata. Possuía o poder da sedução verbal um grande papo, como é hábito dizer-se hoje. Vestia com esmero e elegância: nele as roupas caiam bem, sem excentricidade, mas de acordo com a postura do corpo. Durante muitos anos, a sua marca de singularidade no trajar refletia-se num chapéu preto, de abas largas, talvez o único existente em toda Niterói, dava-lhe imponência. Na sua boêmia destacavam se, como pontos altos, os chopes, as conversas literárias e a ronda aos sábados pelos clubes." (Newton de Braga Mello, 1967)
Lacerda Nogueira, poeta
VELAS
Velas soltas ao vento, além, na imensidade
- alvas como a inocência alegres, palpitando...
Velas feitas de linho! ai, quem chorar não há de,
ao ver-vos, no horizonte, outro país buscando?
Apagais-vos de leve e descuidosas...
Quando derrama, do infinito, a noite a escuridade?...
Velas soltas ao Mar, alegres, palpitando,
alvas como a inocência, além, na imensidade;
Vós trazeis-me à lembrança o momento em que,
[outrora, da minha fantasia o barco, mar em fora
se embalava da Esperança - a deusa fugidia...
O velas, que eu contemplo, ó velas cor de arminho,
buscai outro roteiro! Oh, sim, outro caminho,
se quereis, como eu penso, aqui voltar um dia.
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